“Mulheres do 3º
Milênio”
é um perfil de ajuda e
informações sobre a cirurgia
de redesignação
sexual
 |
| Veridiana e Cibele moderadoras do perfil |
As amigas Cibelle de Oliveira Montini e Veridiana
Melo Ribeiro passaram pela cirurgia de redesignação sexual
[popularmente conhecida como mudança de sexo] em meados dos anos 2000 - uma em
Londres e outra na Tailândia, respectivamente. Após trocarem
figurinhas e compartilharem as dificuldades do procedimento, descobriram que,
embora o tema esteja em evidência desde os anos 80, há muitas dúvidas que ainda
hoje permeiam quem almeja se submeter à cirurgia. Foi então que decidiram se
unir e criar o perfil "Mulheres do Terceiro Milênio" no
Facebook. Um grupo de apoio a quem almeja passar pela CRS.
A página, pela sua interatividade, informativa e sensível
às situações das integrantes, se tornou o ponto de encontro e informação para
201 mulheres, que dividem confidências, experiências, e discutem sobre as várias técnicas
cirúrgica, além do pós-cirurgia e os
resultados de todo o processo transexualizador - ainda fazem alertas sobre os males do silicone
industrial. "Quando fui fazer a cirurgia, que é tão delicada e
irreversível estava desolada e desesperada pela possibilidade do erro e pelas
várias dúvidas que não foram sanadas", diz Veridiana. "O grupo foi
criado para dividir experiências e passar informação que não tivemos em nossa
época", complementa Cibelle.
As dúvidas mais frequentes giram em torno do orgasmo
pós-CRS, sensibilidade, funcionabilidade, a primeira relação sexual, os
hormônios, os médicos confiáveis e os quais evitar. Dentre as repostas, há
vários relatos pessoais, bem como fotos e vídeos das integrantes. "Falamos
sobre tudo e divulgamos imagens sem tabus. Assim como a cirurgia, as dúvidas estão
divididas em duas fases, a funcional e a estética. O maior erro é a
desinformação", defende Cibelle, que pelo trabalho voluntário afirma ter
salvado muitas "meninas das mãos de açougueiros"
Sim, elas encontram diariamente pessoas que enfrentam inúmeros
erros decorrentes de uma cirurgia mal feita. De acordo com Veridiana, há
mais de 130 mulheres que vivem grande sofrimento por conta dos erros
médicos pela CRS, sejam eles funcionais ou estéticos. "Geralmente, o
médico que erra no funcional também erra na estética. A estética é importante -
e há casos em que ela se parece com tudo, menos com uma vagina - porém a
funcionabilidade e a sensibilidade são as maiores reclamações. E, o pior, é que
outros médicos se recusam a fazer os reparos. Infelizmente o Brasil está muito
longe de uma boa CRS", lamenta.
"Quando muitas meninas divulgam os resultados de alguns médicos, todas
ficam horrorizadas. Acabamos prevenindo novos casos".
Os erros que ninguém fala
Dentre os debates, Cibelle aponta para os problemas no atendimento médico -
seja ele referente à cirurgia ou a problemas de saúde que não estejam
relacionados. "Os profissionais da saúde em geral não estão
preparados para lidar conosco e, em casos de problemas, como uma infecção
vaginal, que não está relacionada à cirurgia, muitas vezes não sabem se nos
mandam para um ginecologista ou urologista. Ficam perdidos e nos fazem sentir
mulheres esquecidas. Não entendo porque o governo dá apoio para as meninas fazerem
a redesignação sexual pelo SUS e depois não dá o mesmo subsídio à saúde depois
da cirurgia. Não temos sequer apoio psicológico", diz.
"O mais triste é saber que as ONGs e grupos LGBT pouco se importam com
essas questões, acham que toda transexual é igual e que todas tem as mesmas
necessidades", afirma. "Tanto que o assunto é tratado de maneira
superficial em simpósios e encontros de transexuais, como se fosse um tabu,
algo misterioso e intocável", concorda Veridiana.
Cibelle afirma ainda que outro grande erro - desta vez, por parte do grupo de
mulheres - é querer passar pela cirurgia porque a amiga fez, por status ou por
causa do namorado. Ou então, acreditando fielmente que todos os problemas
sociais serão resolvidos. "A cirurgia deve ser feita para uma satisfação
pessoal, para ter uma satisfação entre o corpo e a mente. O confronto com o
espelho era terrível e inaceitável e, em minha opinião, a cirurgia só deve ser
feita quando há de fato a negação do órgão masculino e quando a pessoa já
passou a ter uma vivência com esta identidade. Não aconselho a redesignação de
um dia para o outro".
 |
Mulher mãe, mulher esposa,
mulher amiga, mulher ativista
|
Veridiana frisa que a CRS não se trata apenas de uma cirurgia que vá
"mudar a genitália", como é comumente divulgada pela mídia. "Há
mudanças significativas na vida de quem realmente sente essa necessidade, não é
apenas uma questão estética. Muda tudo em nós. Eu, por exemplo, fiquei tão
emotiva que choro por qualquer coisa. Fiquei à flor da pele", conta.
“Somos mulheres como qualquer outra”
Apesar do trabalho, as moderadoras alegam que não aceitam a letra T do LGBT e
afirmam que não se identificam como transexuais ou mulheres transexuais.
"Não nos reconhecemos como tal. Somos mulheres e não algo intermediário,
portanto nos chamamos como mulheres do terceiro milênio. Sentimos que somos
mulheres como qualquer outra, não diferenciada. Queremos só ser mais uma na
multidão e isso já basta", defende Veridiana, que diz que abandonou a
comum busca pelo anonimato para ajudar outras semelhantes a combater o
preconceito.
"O significado do nome do grupo é justamente em referência à ideia de que
ser mulher é algo muito mais amplo que aquele que foi designado ao nascer. E
que neste terceiro milênio, com o avanço da medicina as técnicas de CRS, temos
a possibilidade de sermos 100% mulheres. Portanto, somos as mulheres do
terceiro milênio", continua.
Cibelle afirma que aceita a palavra "trans mulher" quando usada para
explicar o contexto. "[Somente a palavra] trans não gostamos, porque
transexual é a pessoa que está em trânsito". Ela explica que a vontade de
se livrar do preconceito e o fato de já terem concluído o processo pessoal
levam muitas trans mulheres a rejeitarem o passado. "Eu, por exemplo, vivo
a minha vida de casada com um italiano, tenho uma filha de quatro anos e moro
em Milão há 20. Embora não rejeite falar sobre o assunto, não grito aos
quatro cantos que passei pela cirurgia. Não quero virar uma atração de circo.
Na minha vida cotidiana, discrição é a palavra".
Vale ressaltar que amigas se conhecem há mais de 20 anos e que, embora estejam
distantes - uma mora em Milão e a outra reside em Salvador - nunca perderam
contato. "Conhecemo-nos no Rio de Janeiro nos anos 90, quando
trabalhávamos na rua. Naquela época trans não tinha muita opção não, viu?
Depois nos encontramos em Milão e morando de porta a porta", revela
Cibelle. "É uma irmã. Fomos vizinhas há muitos anos e trocamos muitas
receitinhas de bolo", conta Veridiana.
Música, campanha e leveza
Apesar dos temas sérios e da preocupação com a saúde do grupo, a página não é
subsidiada apenas por debates densos. Em muitos vídeos e postagens, elas
dançam, mandam beijos, fazem desabafos, compartilham fotos e reportagens que
saíram na mídia. "Também fazemos várias amizades e é maravilhoso a
interação com as diferenças", diz Cibelle. Uma grande integrante da página
é Carla Blanche, brasileira radicada na Alemanha, que alegra as integrantes com
vídeos com dublagens e recadinhos. Sempre inicia com "um, dois, três,
gravando" e dedica uma música às internautas.
Há também campanhas para arrecadar fundos para a cirurgia
do silicone das integrantes e o auxílio voluntário de quem se sensibilizar
pelos casos. "Muitas me ligam chorando e deprimidas por não conseguirem se
olhar no espelho. Pedem permissão para lançar campanhas para arrecadar o
dinheiro necessário para as cirurgias. Embora haja quem se manifeste contra,
consideramos válido. Temos duas que colocaram agora", conta Veridiana.
Com pouco mais de um ano, o grupo é fechado, é até então
“secreto” e novo integrantes só entram mediante os convites ou solicitações.
Tudo devido ao grande número de denúncias, ataques e bloqueios que sofreu
anteriormente. "Não desejamos separatismos e adicionamos pessoas que
queiram saber mais sobre a CRS. É importante o espaço porque, muitas vezes,
meninas são ridicularizadas ao dizer que querem fazer a cirurgia por outras que
não querem. Somos uma minoria", diz Cibelle. "O que eu sempre digo é
para cada uma seguir o próprio extinto, pois acredito que ninguém nos conhece
melhor que nós mesmas", finaliza Veridiana.
_____________________________________
Texto: Neto Lucon
______________________
Para solicitar acesso ao grupo clique AQUI